O avanço do desmatamento em Xerém reacendeu um alerta antigo na Baixada Fluminense: até quando a destruição ambiental continuará sendo tratada como detalhe diante da expansão urbana desordenada e da especulação sobre o território?
No próximo dia 16 de maio, moradores, ativistas ambientais e movimentos sociais irão se reunir na Praça da Equitativa, no 3º distrito de Duque de Caxias, em um ato público contra o desmatamento na região. A mobilização surge em meio ao crescimento das denúncias de devastação ambiental, abertura de áreas para loteamentos e supressão de vegetação em uma das regiões ambientalmente mais importantes do estado do Rio de Janeiro.As imagens que circulam nas redes sociais e materiais do movimento são fortes. Mostram grandes clareiras abertas em áreas antes cobertas pela Mata Atlântica, além de encostas feridas pela retirada da vegetação. Mais do que uma questão paisagística, o que está em debate é a própria capacidade de sobrevivência ambiental e urbana da região.
Xerém ocupa uma posição estratégica para o equilíbrio ecológico da Baixada. A região abriga áreas próximas da Reserva Biológica do Tinguá, uma das mais importantes unidades de conservação do estado, responsável pela proteção de nascentes, biodiversidade e regulação climática. Quando a floresta cai, não desaparecem apenas árvores. Cai junto parte da proteção hídrica, da estabilidade do solo e da qualidade de vida de milhares de pessoas.
Os efeitos já são sentidos pela população.
A falta de água se torna mais frequente. O calor aumenta de forma cada vez mais agressiva. As enchentes passam a ocorrer com maior intensidade. Rios sofrem assoreamento. Encostas ficam mais vulneráveis. E bairros inteiros convivem com a sensação permanente de insegurança ambiental.
Não por acaso, os cartazes do ato associam diretamente o desmatamento ao aumento das ilhas de calor, aos alagamentos e à piora da vida urbana. Trata-se de uma leitura que não nasce apenas da militância ambiental, mas da experiência concreta de quem vive o território.
Nos últimos anos, Xerém tem convivido com denúncias recorrentes envolvendo loteamentos irregulares, abertura clandestina de vias e ocupações em áreas ambientalmente frágeis. Em algumas operações recentes, órgãos ambientais identificaram desmatamento em larga escala, movimentação irregular de terra e intervenções em áreas protegidas.
Existe uma dimensão política importante nesse debate que não pode ser ignorada.
Historicamente, a Baixada Fluminense foi empurrada para um modelo de crescimento urbano marcado pela ausência de planejamento, baixa fiscalização e expansão desordenada. Durante décadas, discutir meio ambiente em muitos territórios populares era tratado como um “luxo”, enquanto questões urgentes como moradia, emprego e infraestrutura dominavam o debate público.
Mas a realidade vem demonstrando que a pauta ambiental também é uma pauta social.
São justamente as populações periféricas que mais sofrem com enchentes, falta d’água, calor extremo e precarização urbana. O desmatamento não afeta todos da mesma forma. Seus impactos recaem, sobretudo, sobre quem depende do transporte público, mora em áreas vulneráveis e possui menor acesso a infraestrutura e proteção do poder público.
Quando uma área verde desaparece, desaparece também parte da capacidade da cidade respirar.
Talvez seja esse o principal mérito do ato convocado em Xerém: transformar a defesa ambiental em uma discussão popular, cotidiana e concreta. Não apenas sobre árvores, mas sobre sobrevivência urbana, saúde pública e futuro coletivo.
O que acontece hoje em Xerém ajuda a revelar uma disputa maior sobre o modelo de desenvolvimento que vem sendo imposto à Baixada Fluminense. Um modelo que frequentemente enxerga a natureza como obstáculo temporário ao avanço econômico imediato, ignorando os custos ambientais e sociais que inevitavelmente retornam para a própria população.
As tragédias climáticas dos últimos anos mostram que o debate ambiental deixou de ser previsão distante. Ele já faz parte da rotina das cidades brasileiras.
Em Xerém, moradores parecem ter compreendido isso antes de muitos gestores públicos.
O ato do dia 16 é, ao mesmo tempo, denúncia, alerta e tentativa de construção coletiva de outro caminho possível. Um caminho onde desenvolvimento não signifique devastação permanente e onde o direito à cidade também inclua o direito ao equilíbrio ambiental.
Porque enquanto árvores caem, não é apenas a floresta que desaparece.
Parte do futuro da própria Baixada Fluminense cai junto.
- Linha Verde (Disque Denúncia RJ): 0300 253 1177 (custo de ligação local) ou APP "Disque Denúncia RJ".
- Comando de Polícia Ambiental (CPAM): (21) 2253-1177.
- WhatsApp do Linha Verde: (21) 99973-1177
- Polícia Militar (Emergência/Flagrante): 190.
- INEA (Instituto Estadual do Ambiente): Instagram do INEA para orientações sobre crimes ambientais

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