terça-feira, 12 de maio de 2026

Desmatamento em Xerém serve de alerta para os crimes ambientais na Baixada Fluminense

 

O avanço do desmatamento em Xerém reacendeu um alerta antigo na Baixada Fluminense: até quando a destruição ambiental continuará sendo tratada como detalhe diante da expansão urbana desordenada e da especulação sobre o território?

No próximo dia 16 de maio, moradores, ativistas ambientais e movimentos sociais irão se reunir na Praça da Equitativa, no 3º distrito de Duque de Caxias, em um ato público contra o desmatamento na região. A mobilização surge em meio ao crescimento das denúncias de devastação ambiental, abertura de áreas para loteamentos e supressão de vegetação em uma das regiões ambientalmente mais importantes do estado do Rio de Janeiro.

As imagens que circulam nas redes sociais e materiais do movimento são fortes. Mostram grandes clareiras abertas em áreas antes cobertas pela Mata Atlântica, além de encostas feridas pela retirada da vegetação. Mais do que uma questão paisagística, o que está em debate é a própria capacidade de sobrevivência ambiental e urbana da região.

Xerém ocupa uma posição estratégica para o equilíbrio ecológico da Baixada. A região abriga áreas próximas da Reserva Biológica do Tinguá, uma das mais importantes unidades de conservação do estado, responsável pela proteção de nascentes, biodiversidade e regulação climática. Quando a floresta cai, não desaparecem apenas árvores. Cai junto parte da proteção hídrica, da estabilidade do solo e da qualidade de vida de milhares de pessoas.


Os efeitos já são sentidos pela população.

A falta de água se torna mais frequente. O calor aumenta de forma cada vez mais agressiva. As enchentes passam a ocorrer com maior intensidade. Rios sofrem assoreamento. Encostas ficam mais vulneráveis. E bairros inteiros convivem com a sensação permanente de insegurança ambiental.

Não por acaso, os cartazes do ato associam diretamente o desmatamento ao aumento das ilhas de calor, aos alagamentos e à piora da vida urbana. Trata-se de uma leitura que não nasce apenas da militância ambiental, mas da experiência concreta de quem vive o território.

Nos últimos anos, Xerém tem convivido com denúncias recorrentes envolvendo loteamentos irregulares, abertura clandestina de vias e ocupações em áreas ambientalmente frágeis. Em algumas operações recentes, órgãos ambientais identificaram desmatamento em larga escala, movimentação irregular de terra e intervenções em áreas protegidas.

Existe uma dimensão política importante nesse debate que não pode ser ignorada.

Historicamente, a Baixada Fluminense foi empurrada para um modelo de crescimento urbano marcado pela ausência de planejamento, baixa fiscalização e expansão desordenada. Durante décadas, discutir meio ambiente em muitos territórios populares era tratado como um “luxo”, enquanto questões urgentes como moradia, emprego e infraestrutura dominavam o debate público.

Mas a realidade vem demonstrando que a pauta ambiental também é uma pauta social.

São justamente as populações periféricas que mais sofrem com enchentes, falta d’água, calor extremo e precarização urbana. O desmatamento não afeta todos da mesma forma. Seus impactos recaem, sobretudo, sobre quem depende do transporte público, mora em áreas vulneráveis e possui menor acesso a infraestrutura e proteção do poder público.

Quando uma área verde desaparece, desaparece também parte da capacidade da cidade respirar.

Talvez seja esse o principal mérito do ato convocado em Xerém: transformar a defesa ambiental em uma discussão popular, cotidiana e concreta. Não apenas sobre árvores, mas sobre sobrevivência urbana, saúde pública e futuro coletivo.

O que acontece hoje em Xerém ajuda a revelar uma disputa maior sobre o modelo de desenvolvimento que vem sendo imposto à Baixada Fluminense. Um modelo que frequentemente enxerga a natureza como obstáculo temporário ao avanço econômico imediato, ignorando os custos ambientais e sociais que inevitavelmente retornam para a própria população.

As tragédias climáticas dos últimos anos mostram que o debate ambiental deixou de ser previsão distante. Ele já faz parte da rotina das cidades brasileiras.

Em Xerém, moradores parecem ter compreendido isso antes de muitos gestores públicos.

O ato do dia 16 é, ao mesmo tempo, denúncia, alerta e tentativa de construção coletiva de outro caminho possível. Um caminho onde desenvolvimento não signifique devastação permanente e onde o direito à cidade também inclua o direito ao equilíbrio ambiental.

Porque enquanto árvores caem, não é apenas a floresta que desaparece.

Parte do futuro da própria Baixada Fluminense cai junto.


Principais Canais de Denúncia (Anônimos):
  • Linha Verde (Disque Denúncia RJ): 0300 253 1177 (custo de ligação local) ou APP "Disque Denúncia RJ".
  • Comando de Polícia Ambiental (CPAM): (21) 2253-1177.
  • WhatsApp do Linha Verde: (21) 99973-1177
Emergência e Órgãos Públicos:
  • Polícia Militar (Emergência/Flagrante): 190.
  • INEA (Instituto Estadual do Ambiente): Instagram do INEA para orientações sobre crimes ambientais
 

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Desmatamento em Xerém serve de alerta para os crimes ambientais na Baixada Fluminense

  O avanço do desmatamento em Xerém reacendeu um alerta antigo na Baixada Fluminense: até quando a destruição ambiental continuará sendo tra...