segunda-feira, 20 de julho de 2026

"Baixada está representada no 19º Festival Visões Periféricas"

 Esta é a manchete do Jornal de Hoje de Nova Iguaçu



A Baixada Fluminense em cena grande: nosso cinema no Visões Periféricas 2026

Escrevo este texto com aquele orgulho que só quem vive e trabalha por aqui consegue entender de verdade. A Baixada Fluminense vai estar representada, mais uma vez, em um dos festivais mais importantes do cinema independente do país: o Visões Periféricas, que chega à sua 19ª edição de 23 a 26 de julho.

São 69 obras selecionadas entre 856 inscrições de todo o Brasil — um crescimento de 70% em relação ao ano passado — e, no meio dessa seleção enorme, três produções carregam o nome da nossa região. Não é pouca coisa. É a prova de que o cinema que nasce na periferia, longe dos grandes centros de produção, continua encontrando espaço, força e reconhecimento.

Um documentário que resgata memória e faz justiça histórica

O grande destaque baixadense ou para muitos de nós, baixadiano, é o longa Amuleto, dirigido por Heraldo HB e Igor Barradas — dois cineastas nascidos e criados em Duque de Caxias e que conheço desde os confins da adolescência e que tive oportunidade de acompanhar de perto a saga na realização deste filme que já nasce como um épico de nossa gente. O filme investiga, depois de quase 20 anos de pesquisa, a ligação entre nossa cidade e "O Amuleto de Ogum", clássico de 1975 dirigido por Nelson Pereira dos Santos.

O que mais me toca nessa história é o resgate de personagens que ficaram nas sombras da memória oficial do cinema brasileiro: o produtor Chico Santos, que levou a ideia do roteiro a Nelson Pereira dos Santos; o ator e roteirista Erley José, que apresentou ao diretor os terreiros de umbanda que entrariam no filme; e Severino Dadá, o "Cangaceiro da Moviola", responsável pela montagem da obra. São baixadenses que ajudaram a construir um marco do cinema nacional e que, finalmente, têm seus nomes contados.

No entanto, Amuleto carrega uma mensagem ainda maior que é sobre o papel central dos trabalhadores do audiovisual, do mercado chamado janela de exibição concentrado na famílias donas de cinema ou tradicionais realizadoras do audiovisual, da criação que vem da periferia e solapada pelas classes médias e da organicidades da cadeia produtiva do fazer cinema, transformando o filme em um panfleto vermelho da luta de classes que conduz a atenção dos desapercebido para uma miragem, que esconde a denúncia em uma narrativa aparentemente lírica. Ali, tudo é um soco, uma banda, um dedo no olho, mas mimetizado por uma narrativa envolvente com uma declarada dose de romantismo.

Tem que vê pra crê, mas vendo, cuidado, porque muito do que você verá vai requerer você pensar do que esta para além do olhar. 

"Amuleto" será exibido no dia 25 de julho, sábado, às 14h, na Arena Cultural Dicró (Cineclube Adélia Sampaio), na Penha.

As tradições e as urgências da nossa gente também estão lá

Ao lado do longa, dois curtas completam a representação da região. Essa é nossa bandeira, documentário de Mateus Carvalho, acompanha um grupo de Folia de Reis percorrendo as ruas da Baixada numa tarde de Natal — fé, festa e tradição populares registradas com o carinho que merecem.

E há um motivo a mais de orgulho para mim neste festival: o curta de ficção Tempestade de Mentiras, de Ângela Santos, é uma realização da formação da ELAdaBF — Escola Livre de Artes da Baixada Fluminense, Eixo Cinema do Gomeia Galpão Criativo. Ver um trabalho nascido dentro da nossa própria escola de formação chegando a um festival deste porte é a confirmação de que o investimento em educação e cultura na Baixada dá frutos concretos, visíveis, premiáveis. 

Estávamos nas aulas, na construção do plot, do desenvolvimento do roteiro, das gravações e da emoção dos alunos e, em especial de Ângela Santos e Flávia, sua filha, reafirmando a tradição da família e resgatando o lugar do sonho através de olhares que se comunicam com Chico Santos, pai de Ângela Santos e o criador do argumento de Amuleto de Ogum. Ciclos de vidas que se conectam neste espiral criativo do cinema.

Um festival que já é história

O Visões Periféricas nasceu em 2007 e, ao longo de duas décadas, tornou-se referência na difusão do cinema produzido fora dos grandes centros. Segundo Márcio Blanco, idealizador do evento, o festival acompanhou a consolidação de uma produção que ampliou vozes e narrativas antes invisibilizadas no audiovisual brasileiro. Já o curador Wilq Vicente observa que as temáticas amadureceram: se antes predominavam os filmes de denúncia urgente, hoje a produção periférica também se permite mais ficção, mais subjetividade, mais elaboração estética — sem abrir mão das questões raciais e sociais que continuam no centro dessas histórias.

Esta edição homenageia o projeto Vídeo nas Aldeias, com a exibição de abertura do filme "Arquivo Vivo", de Vincent Carelli e Ana Carvalho, e reúne produções de 18 estados brasileiros.

Por que isso importa para nós

Cada vez que um filme feito na Baixada Fluminense ocupa uma tela de festival, alguma coisa se desloca. Rompe-se, aos poucos, a ideia de que aqui só existe ausência de cultura — quando na verdade o que existe é uma produção intensa que segue lutando por visibilidade e reconhecimento. Ver "Amuleto" reconstruindo uma parte esquecida da nossa história cinematográfica, e ver um curta nascido dentro da nossa própria escola de formação dividindo espaço com produções de todo o país, é um lembrete de que continuar investindo em cultura, formação e memória na nossa região vale — e muito — a pena.

Serviço Festival Visões Periféricas 2026 De 23 a 26 de julho (presencial e online) Programação completa: www.visoesperifericas.com.br Ingressos gratuitos, retirada na porta de cada sala de exibição

Com informações do Jornal de Hoje.

terça-feira, 12 de maio de 2026

Desmatamento em Xerém serve de alerta para os crimes ambientais na Baixada Fluminense

 

O avanço do desmatamento em Xerém reacendeu um alerta antigo na Baixada Fluminense: até quando a destruição ambiental continuará sendo tratada como detalhe diante da expansão urbana desordenada e da especulação sobre o território?

No próximo dia 16 de maio, moradores, ativistas ambientais e movimentos sociais irão se reunir na Praça da Equitativa, no 3º distrito de Duque de Caxias, em um ato público contra o desmatamento na região. A mobilização surge em meio ao crescimento das denúncias de devastação ambiental, abertura de áreas para loteamentos e supressão de vegetação em uma das regiões ambientalmente mais importantes do estado do Rio de Janeiro.

As imagens que circulam nas redes sociais e materiais do movimento são fortes. Mostram grandes clareiras abertas em áreas antes cobertas pela Mata Atlântica, além de encostas feridas pela retirada da vegetação. Mais do que uma questão paisagística, o que está em debate é a própria capacidade de sobrevivência ambiental e urbana da região.

Xerém ocupa uma posição estratégica para o equilíbrio ecológico da Baixada. A região abriga áreas próximas da Reserva Biológica do Tinguá, uma das mais importantes unidades de conservação do estado, responsável pela proteção de nascentes, biodiversidade e regulação climática. Quando a floresta cai, não desaparecem apenas árvores. Cai junto parte da proteção hídrica, da estabilidade do solo e da qualidade de vida de milhares de pessoas.


Os efeitos já são sentidos pela população.

A falta de água se torna mais frequente. O calor aumenta de forma cada vez mais agressiva. As enchentes passam a ocorrer com maior intensidade. Rios sofrem assoreamento. Encostas ficam mais vulneráveis. E bairros inteiros convivem com a sensação permanente de insegurança ambiental.

Não por acaso, os cartazes do ato associam diretamente o desmatamento ao aumento das ilhas de calor, aos alagamentos e à piora da vida urbana. Trata-se de uma leitura que não nasce apenas da militância ambiental, mas da experiência concreta de quem vive o território.

Nos últimos anos, Xerém tem convivido com denúncias recorrentes envolvendo loteamentos irregulares, abertura clandestina de vias e ocupações em áreas ambientalmente frágeis. Em algumas operações recentes, órgãos ambientais identificaram desmatamento em larga escala, movimentação irregular de terra e intervenções em áreas protegidas.

Existe uma dimensão política importante nesse debate que não pode ser ignorada.

Historicamente, a Baixada Fluminense foi empurrada para um modelo de crescimento urbano marcado pela ausência de planejamento, baixa fiscalização e expansão desordenada. Durante décadas, discutir meio ambiente em muitos territórios populares era tratado como um “luxo”, enquanto questões urgentes como moradia, emprego e infraestrutura dominavam o debate público.

Mas a realidade vem demonstrando que a pauta ambiental também é uma pauta social.

São justamente as populações periféricas que mais sofrem com enchentes, falta d’água, calor extremo e precarização urbana. O desmatamento não afeta todos da mesma forma. Seus impactos recaem, sobretudo, sobre quem depende do transporte público, mora em áreas vulneráveis e possui menor acesso a infraestrutura e proteção do poder público.

Quando uma área verde desaparece, desaparece também parte da capacidade da cidade respirar.

Talvez seja esse o principal mérito do ato convocado em Xerém: transformar a defesa ambiental em uma discussão popular, cotidiana e concreta. Não apenas sobre árvores, mas sobre sobrevivência urbana, saúde pública e futuro coletivo.

O que acontece hoje em Xerém ajuda a revelar uma disputa maior sobre o modelo de desenvolvimento que vem sendo imposto à Baixada Fluminense. Um modelo que frequentemente enxerga a natureza como obstáculo temporário ao avanço econômico imediato, ignorando os custos ambientais e sociais que inevitavelmente retornam para a própria população.

As tragédias climáticas dos últimos anos mostram que o debate ambiental deixou de ser previsão distante. Ele já faz parte da rotina das cidades brasileiras.

Em Xerém, moradores parecem ter compreendido isso antes de muitos gestores públicos.

O ato do dia 16 é, ao mesmo tempo, denúncia, alerta e tentativa de construção coletiva de outro caminho possível. Um caminho onde desenvolvimento não signifique devastação permanente e onde o direito à cidade também inclua o direito ao equilíbrio ambiental.

Porque enquanto árvores caem, não é apenas a floresta que desaparece.

Parte do futuro da própria Baixada Fluminense cai junto.


Principais Canais de Denúncia (Anônimos):
  • Linha Verde (Disque Denúncia RJ): 0300 253 1177 (custo de ligação local) ou APP "Disque Denúncia RJ".
  • Comando de Polícia Ambiental (CPAM): (21) 2253-1177.
  • WhatsApp do Linha Verde: (21) 99973-1177
Emergência e Órgãos Públicos:
  • Polícia Militar (Emergência/Flagrante): 190.
  • INEA (Instituto Estadual do Ambiente): Instagram do INEA para orientações sobre crimes ambientais
 

 

 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

MinC leva formação cultural para a Costa Verde fluminense — e isso importa para toda a região

  Observatório do Prates — Cultura, Política e Educação 

 

O Ministério da Cultura está levando, em maio, um curso de formação para artistas, gestores, conselheiros e produtores culturais da região Costa Verde do Rio de Janeiro — municípios de Angra dos Reis, Itaguaí, Mangaratiba e Paraty.

Não é pouca coisa. Formação qualificada, com certificação oficial, para quem trabalha na base do sistema cultural brasileiro, muitas vezes sem acesso a esse tipo de oportunidade. São 22 horas de conteúdo estruturado em quatro módulos, cobrindo desde os fundamentos dos direitos culturais no Brasil até temas práticos como editais, leis de incentivo, fundos de cultura, participação social e diversidade.

A coordenação é do Núcleo de Políticas Culturais do MinC. A secretária de Articulação Federativa, Roberta Martins, que acompanho de perto em suas ações pelo fortalecimento do Sistema Nacional de Cultura, reafirma o compromisso do ministério com a descentralização das políticas públicas — levando formação para fora do eixo Rio-São Paulo e para dentro dos territórios.

A dupla Cleise Campos e Flávio Aniceto traz ao curso um diferencial importante: são duas lideranças culturais do Rio de Janeiro com bases sólidas na Política Nacional de Cultura — acumulam vasto conhecimento e debate no campo teórico e, também, uma longa jornada na construção de políticas públicas e como fazedores de cultura. Realizadores com trajetória marcada por projetos populares, enraizados nas comunidades e com forte aderência social. Uma combinação rara de conhecimento e prática que enriquece qualquer formação.

Por que isso é relevante?

Porque fortalecer conselheiros municipais de cultura, capacitar gestores locais e formar arte-educadores é exatamente o tipo de política que constrói sistemas culturais sustentáveis. Não basta ter um edital federal se o município não tem quem saiba acessá-lo, executá-lo e prestar contas com qualidade. A formação é o elo que falta em muitos lugares.


 

Para quem atua na Baixada Fluminense como eu, ver esse movimento do MinC chegando ao interior do Estado é animador — e é um modelo que precisamos reivindicar também para os nossos municípios.

Como participar

A formação é gratuita. São dois encontros presenciais e dois virtuais. As inscrições podem ser feitas pelo formulário online ou presencialmente no primeiro dia do curso.

Agenda:

📍 1º Encontro — Mangaratiba 📅 12 de maio (terça-feira), às 14h 📌 Quilombo Santa Justina/Santa Isabel — Estrada São João Marcos, Bairro Acampamento, primeira rua após a Escola Municipal Diogo Martins

📍 2º Encontro — Rio de Janeiro 📅 19 de maio (terça-feira), às 13h30 📌 Palácio Capanema — MinC, Rua da Imprensa, 16, Centro

🔗 Inscrições: https://forms.gle/7mjXiTMLTDioMWDr6

Os encontros virtuais terão datas combinadas com a turma durante o segundo encontro presencial.

Para ficar por dentro de mais informações, acesse: 

Assessoria de Imprensa Ministério da Cultura (MinC)

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