Esta é a manchete do Jornal de Hoje de Nova Iguaçu
A Baixada Fluminense em cena grande: nosso cinema no Visões Periféricas 2026
Escrevo este texto com aquele orgulho que só quem vive e trabalha por aqui consegue entender de verdade. A Baixada Fluminense vai estar representada, mais uma vez, em um dos festivais mais importantes do cinema independente do país: o Visões Periféricas, que chega à sua 19ª edição de 23 a 26 de julho.
São 69 obras selecionadas entre 856 inscrições de todo o Brasil — um crescimento de 70% em relação ao ano passado — e, no meio dessa seleção enorme, três produções carregam o nome da nossa região. Não é pouca coisa. É a prova de que o cinema que nasce na periferia, longe dos grandes centros de produção, continua encontrando espaço, força e reconhecimento.
Um documentário que resgata memória e faz justiça histórica
O grande destaque baixadense ou para muitos de nós, baixadiano, é o longa Amuleto, dirigido por Heraldo HB e Igor Barradas — dois cineastas nascidos e criados em Duque de Caxias e que conheço desde os confins da adolescência e que tive oportunidade de acompanhar de perto a saga na realização deste filme que já nasce como um épico de nossa gente. O filme investiga, depois de quase 20 anos de pesquisa, a ligação entre nossa cidade e "O Amuleto de Ogum", clássico de 1975 dirigido por Nelson Pereira dos Santos.
O que mais me toca nessa história é o resgate de personagens que ficaram nas sombras da memória oficial do cinema brasileiro: o produtor Chico Santos, que levou a ideia do roteiro a Nelson Pereira dos Santos; o ator e roteirista Erley José, que apresentou ao diretor os terreiros de umbanda que entrariam no filme; e Severino Dadá, o "Cangaceiro da Moviola", responsável pela montagem da obra. São baixadenses que ajudaram a construir um marco do cinema nacional e que, finalmente, têm seus nomes contados.
No entanto, Amuleto carrega uma mensagem ainda maior que é sobre o papel central dos trabalhadores do audiovisual, do mercado chamado janela de exibição concentrado na famílias donas de cinema ou tradicionais realizadoras do audiovisual, da criação que vem da periferia e solapada pelas classes médias e da organicidades da cadeia produtiva do fazer cinema, transformando o filme em um panfleto vermelho da luta de classes que conduz a atenção dos desapercebido para uma miragem, que esconde a denúncia em uma narrativa aparentemente lírica. Ali, tudo é um soco, uma banda, um dedo no olho, mas mimetizado por uma narrativa envolvente com uma declarada dose de romantismo.
Tem que vê pra crê, mas vendo, cuidado, porque muito do que você verá vai requerer você pensar do que esta para além do olhar.
"Amuleto" será exibido no dia 25 de julho, sábado, às 14h, na Arena Cultural Dicró (Cineclube Adélia Sampaio), na Penha.
As tradições e as urgências da nossa gente também estão lá
Ao lado do longa, dois curtas completam a representação da região. Essa é nossa bandeira, documentário de Mateus Carvalho, acompanha um grupo de Folia de Reis percorrendo as ruas da Baixada numa tarde de Natal — fé, festa e tradição populares registradas com o carinho que merecem.
E há um motivo a mais de orgulho para mim neste festival: o curta de ficção Tempestade de Mentiras, de Ângela Santos, é uma realização da formação da ELAdaBF — Escola Livre de Artes da Baixada Fluminense, Eixo Cinema do Gomeia Galpão Criativo. Ver um trabalho nascido dentro da nossa própria escola de formação chegando a um festival deste porte é a confirmação de que o investimento em educação e cultura na Baixada dá frutos concretos, visíveis, premiáveis.
Estávamos nas aulas, na construção do plot, do desenvolvimento do roteiro, das gravações e da emoção dos alunos e, em especial de Ângela Santos e Flávia, sua filha, reafirmando a tradição da família e resgatando o lugar do sonho através de olhares que se comunicam com Chico Santos, pai de Ângela Santos e o criador do argumento de Amuleto de Ogum. Ciclos de vidas que se conectam neste espiral criativo do cinema.
Um festival que já é história
O Visões Periféricas nasceu em 2007 e, ao longo de duas décadas, tornou-se referência na difusão do cinema produzido fora dos grandes centros. Segundo Márcio Blanco, idealizador do evento, o festival acompanhou a consolidação de uma produção que ampliou vozes e narrativas antes invisibilizadas no audiovisual brasileiro. Já o curador Wilq Vicente observa que as temáticas amadureceram: se antes predominavam os filmes de denúncia urgente, hoje a produção periférica também se permite mais ficção, mais subjetividade, mais elaboração estética — sem abrir mão das questões raciais e sociais que continuam no centro dessas histórias.
Esta edição homenageia o projeto Vídeo nas Aldeias, com a exibição de abertura do filme "Arquivo Vivo", de Vincent Carelli e Ana Carvalho, e reúne produções de 18 estados brasileiros.
Por que isso importa para nós
Cada vez que um filme feito na Baixada Fluminense ocupa uma tela de festival, alguma coisa se desloca. Rompe-se, aos poucos, a ideia de que aqui só existe ausência de cultura — quando na verdade o que existe é uma produção intensa que segue lutando por visibilidade e reconhecimento. Ver "Amuleto" reconstruindo uma parte esquecida da nossa história cinematográfica, e ver um curta nascido dentro da nossa própria escola de formação dividindo espaço com produções de todo o país, é um lembrete de que continuar investindo em cultura, formação e memória na nossa região vale — e muito — a pena.
Serviço Festival Visões Periféricas 2026 De 23 a 26 de julho (presencial e online) Programação completa: www.visoesperifericas.com.br Ingressos gratuitos, retirada na porta de cada sala de exibição
Com informações do Jornal de Hoje.
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